A FRACA E VACILANTE, PORÉM PODEROSA ORAÇÃO DE UM PAI!

O capítulo 9 do Evangelho de Marcos relata a mais fraca, contudo, uma das mais tocantes orações registradas na Bíblia. Não é a oração de um super herói espiritual, nem é a eloquente oração de um religioso fariseu e nem a de um profeta do Antigo Testamento ou a de algum discípulo de Jesus. Na verdade, trata-se da oração de um homem que nem sequer era religioso e cuja fé era ainda muito débil. É a oração vacilante, curta e dramática de um pai sofrido e desesperado! Ele não possuía muita fé, mas não era totalmente descrente, pois procurou a Jesus. Ele não sabia orar direito, mas não esperou a conclusão de um curso para começar. Ele confessou, "eu creio", mas reconhecendo a fraqueza de sua fé, clamou ao Senhor: "ajuda-me na minha incredulidade". Talvez ele não cresse tanto, mas ele queria crer em Cristo. Jesus o ajudou em sua falta de fé. Jesus não desprezou a sua oração. Jesus teve compaixão e socorreu o seu querido filho.

Neste capítulo temos dois interessantes contrastes. O primeiro diz respeito a glória que se viu no alto do monte da transfiguração em oposição a miséria presenciada no vale sombrio povoado de demônios. Depois, temos também, a questão da ausência de oração e a falta de fé tanto dos discípulos quanto dos fariseus, em contraste com a oração, mesmo que vacilante, daquele angustiado pai em busca de socorro para seu filho.

É interessante notar que Jesus guia três de seus discípulos ao alto do monte para contemplarem a sua glória. Mas o mesmo Senhor também os guia ao vale sombrio para se depararem com a miséria humana que carece de ajuda e libertação. O Bom Pastor nos guia aos pastos verdejantes e também nos guia através vale da sombra da morte. Devemos subir ao monte, mas não é hora ainda de permanecermos ali, pois há muito o que fazer no vale. Vivemos entre dois mundos, entre duas eras. Vivemos sob à luz da ressurreição e também sob a sombra da cruz. Jesus nos leva ao cume do monte e nos refrigera a alma, mas também nos desafia a sair de nossa zona de conforto para descermos ao vale a fim de cumprirmos uma extraordinária missão.

A glória do Senhor deve ser vista tanto no monte quanto no vale, e sua vontade deve ser feita tanto no céu quanto na terra. O mundo jaz no maligno, mas Jesus veio desfazer as obras do diabo. O diabo só vem para matar, roubar e destruir, mas Jesus veio para dar vida abundante (Jo 10.10). "O Espirito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar aos pobres. Enviou-me para apregoar liberdade aos cativos, dar vistas aos cegos, por em liberdade os oprimidos, e anunciar o ano aceitável do Senhor" (Lc 4.14-19)

Quando os discípulos descem do monte com Jesus, eles se deparam com uma situação caótica em que fariseus estavam discutindo com os discípulos que haviam fracassado em sua missão de libertar o moço de seus demônios. O que se via era confusão entre religiosos diante do drama de um pai desesperado em busca de cura para o seu único filho que desde a infância era dominado e oprimido por espíritos malignos.

Diante da miséria humana, os fariseus e os discípulos discutiam uns com os outros em vez de orar. No final da história, Jesus instrui aos discípulos dizendo que eles não puderam expulsar, porque aqueles tipos de demônios só saem através da oração. Os discípulos ainda estavam em formação. Eles precisavam aprender muitas lições. E uma delas era sobre a oração. Às vezes, somos tentados a agri como se fôssemos auto-suficientes, como se não dependêssemos de Deus. Passamos a confiar em nossa própria capacidade e até mesmo em nossos dons espirituais e agimos com certa arrogância. Fico curioso para saber como foi que os discípulos haviam tentado expulsar o demônio sem oração. Pode ser que tenham sido tomados por uma certa presunção espiritual, crendo que tinham autoridade em si mesmos para tanto. Talvez, tenham feito como muitos pastores hoje em dia que não pedem mais nada a Deus, pois ensinam que o certo é "exigir" e "reivindicar". Ou talvez tenham feito como Moisés quando desobedeceu a orientação de Deus e, em vez de falar a rocha, feriu-a para que dela saísse água (Nm 20). Pode ser que tenham chamado mais a atenção para si do que para a glória de Deus. Sabemos que os discípulos ainda estavam naquela fase de querer fazer descer fogo do céu para consumir os impenitentes e disputavam entre sim pela primazia no reino de Deus. Certamente precisavam aprender a ser humildes para sempre reconhecer sua dependência de Deus. Todos precisamos admitir que nossa suficiência vem de Deus. Pois, como ensinou Jesus: "Sem mim, nada podeis fazer" (Jo 15.5).

Bem, o que sabemos, de fato, é que a única oração que se ouviu foi a daquele pai, que, em sua fraqueza, ousou buscar o socorro de Jesus. A ignorância espiritual e a fraqueza da fé deste pobre pai foi maior que a bagagem teológica dos fariseus e a experiência dos discípulos de Jesus que foram negligentes na fé e na oração. O pai do moço não sabia orar, mas orou mesmo assim, enquanto os que sabiam falharam em fazê-lo, o que nos faz lembrar o contraste entre o profeta Jonas e os pagãos que diante da tempestade, em sua ignorância, clamavam aos seu próprios deuses, enquanto o profeta de Deus permanecia indiferente e calado diante do drama daquela tempestade. A fé daquele pai foi vacilante. Ele chegou até mesmo a supor que aquele problema fosse grande demais para a alçada de Jesus, ao dizer "se tu podes", mas, mesmo assim, aos trancos e barracos, ele orou em favor de seu filho e clamou por misericórdia em relação a sua falta de fé, dizendo: "eu creio, ajuda-me na minha incredulidade".

Vemos aí, que o poder não está nem no tamanho da fé e nem na oração em si, mas, sim, no Senhor Jesus, autor e consumador da fé. Mesmo uma fé pequena pode transportar montanhas quando está depositada no Deus verdadeiro. Aprendemos com aquele pai que podemos e devemos clamar para que o Senhor nos socorra em nossa falta de fé. Os discípulos de Jesus também oraram para que sua fé fosse aumentada. O mesmo Deus que ouviu o clamor daquele pai e dos discípulos, ajudando-os em sua incredulidade pode e deseja acudir a todos que o invocam, pedindo: "ajuda-me na minha incredulidade".

Oremos!

Bispo José Ildo Swartele de Mello
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