Re-enactment: Candida Sastre
Concepção e Direção: Moana Mayall e Candida Sastre
Imagens: Valério Fonseca
Agradecimentos: Tarik Vasques, Rany Carneiro e Gaia Catta.

O Re-enactment

Fazer um re-enactment. Reencenar uma performance. Essa foi a missão que recebi em Análise de Temas e Autores Teatrais. Num primeiro momento tentei entender a relação entre a arte conceitual (a performance) e os temas teatrais.

Lendo a bibliografia do curso, especialmente os textos de Hans-Thies Lehmann e de Fábio Cypriano, percebi que esta relação existe na efemeridade em comum ao teatro e a arte performática. A performance assim como o teatro é uma experiência ao vivo. Na minha opinião o registro de uma performance assim como o registro de uma peça de teatro não é a performance ou a peça. Os dispositivos de registro seriam um desdobramento daquela obra.

Um re-enactment é uma repetição encenada por outro artista é a “teatralização da performance”. Me chamou atenção a declaração de Tom Marioni, amigo do performer Cris Burden, em carta ao New York Times para explicar a recusa de Burden em permitir que a performer Marina Abramovic recriasse uma performance sua.

“Se o trabalho de Burden (Cris) fosse recriado por outro artista, ele se tornaria uma encenação teatral, com um artista assumindo o papel do outro”.

Pois foi exatamente como atriz que encarei essa missão. A persona da atriz recriando um personagem permeou meu trabalho desde o início. Com o texto de Regina Merlin descobri que a performance, em muitos casos, envolve questões biográficas do artista. E pensei que a melhor maneira de escolher meu re-enactment seria refletindo sobre o que estava me incomodando naquele outubro de 2010. Encontrei no artista plástico Antônio Manuel os primeiros indícios dos conceitos que queria discutir. Em 1970, Antônio Manuel se apresentou na noite de abertura do Salão Nacional de Arte Moderna como a obra de arte recusada. O ator, assim como o performer, tem como matéria prima do seu trabalho o corpo. Meu corpo é minha obra, é meu material de trabalho.

Pensando na questão da recusa e das exigências de mercado, cheguei ao trabalho de Marina Abramovic, Art Must be Beautiful-Artist Must be Beautiful. No vídeo de 1975 Marina recria uma ação cotidiana (pentear-se) e a transforma numa ação artística. Não é um ato de embelezamento, mas um gesto de questionamento. Marina se penteia durante 13 minutos e 58 segundos, e vai num crescendo até sentir dor.

Pesquisei o processo criativo de Marina e tentei me preparar da mesma forma para gravar o vídeo. Achei importante tentar, assim como ela, programar a minha mente para fazer uma performance. E é aqui que a atriz entrou mais uma vez em cena, pois normalmente não tenho o hábito de meditar fora de um contexto religioso. O que faço antes de entrar em cena é me concentrar. A encenação também se caracterizou pela quebra dos três dogmas definidos pela própria Marina Abramovic no início de sua carreira: “sem ensaio, sem repetição e sem final previsto”. Ensaiei duas vezes na minha casa com a web cam do meu computador e no dia da filmagem fiz a performance duas vezes. O final, obviamente, já estava previamente definido.

O que realmente não estava definido foi a repetição da performance. “Mais uma pra garantir”, me disse meu amigo que filmava a ação. Ironicamente o elemento surpresa veio de uma regra tradicional da forma de registro escolhida. Ao todo fiz quatro vezes o re-enactment, cinco se contar a edição do vídeo, que discuto mais adiante.

Durante a performance não me preocupei com o registro, houve uma pré produção aonde resolvi todas as questões de filmagem. No set me deixei envolver pelo sentimento, puxei o cabelo com muita força, não de uma forma proposital, mas como consequência da repetição frenética que me propus. Senti muito calor e no final muita dor de cabeça. Fazer a segunda vez foi um esforço absurdo. Ao ver as imagens, percebi que, infelizmente, não fui capaz de manter a placidez original de Marina Abramovic. Havia um festival de caretas e a dor estava expressa mais do que deveria. E foi aí que entrou a edição.

O conceito, o registro e a edição

Escolhi uma performance em vídeo de propósito. Pesquisando performances, percebi que os registros que mais me agradavam eram em vídeo. E que as imagens documentais (sem um direcionamento) não eram tão interessantes. E nesse caso, seria avaliado o registro, pois meu trabalho não seria acompanhado. Por isso, levei em conta que a missão não era só o re-enactment, mas a forma de registrá-lo, já que esse registro seria publicado. Achei o trabalho de edição tão importante quanto a performance. Se estou recriando uma performance feita em vídeo, o vídeo é também um re-enactment (nesse caso, o quinto). Ao recriar o trabalho de Marina Abramovic, usei três das cinco condições estabelecidas por ela no re-enactment As Seven Easy Pieces.

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As outras duas: peça permissão ao artista e pague os direitos autorais, foram ignoradas por motivos óbvios.
Desenvolvi o vídeo em parceria com a artista de multimeios e pesquisadora Moana Mayall. O que começou como um favor para um trabalho universitário, acabou se transformando numa parceria e gerando um vídeo profissional.

Cheguei à casa de Moana com a fita de Mini DV, um Cd com imagens de capas de revistas, um DVD com a cópia do vídeo de Marina e a idéia de juntar todas essas imagens de alguma forma. Desde o início, para mim, a melhor forma de exibir o material original, seria junto com o meu. Não queria passar um vídeo e depois o outro. Também queria acrescentar outras imagens, ir além, trabalhar com a idéia das capas de revistas e com o conceito platônico do belo.

Quando estava fazendo a pesquisa para o re-enactment, dei de cara com a imagem de uma cantora de calcinha e sutiã, na capa da revista Rolling Stone. Achei estranho. Era uma cantora que, teoricamente, só precisava ter voz. Por que posar de calcinha e sutiã?
Sou a primeira a defender a atitude e a contestação de um artista. Mas me chamou atenção o fato da Rolling Stone ser uma revista especializada em música. Aquela imagem não estava na capa do disco ou na capa de uma revista de moda. Ilustrava uma matéria sobre música.

Quando o artista tem que estar bonito, até na hora de posar para a capa da revista especializada em sua arte, está na hora de pensar sobre isso. Penso que as questões levantadas por Marina são mais atuais hoje, do que em 1975.

O artista deve ser bonito? Até que ponto existe um exagero e uma massificação do conceito da beleza, uma repetição da fórmula cabelo louro e nariz pequeno? Para isso, queria usar mais imagens, atualizar essa contestação.

Em entrevista a Lynne Cook durante a 28ª Bienal de arte de São Paulo, Marina Abramovic declara:

“Não é justo que a nova tecnologia tenha uma aparência tão melhor, mais bonita e mais atual: as obras antigas de alguma forma ainda se perdem, mesmo que as idéias sejam dez vezes melhores. A minha grande pergunta é: será que o artista tem o direito de atualizar o material do seu passado, colocando – o em um contexto no qual talvez venha a ter uma nova vida?”

Como não sou a artista original, me senti autorizada pelas palavras de Marina a seguir em frente na minha pesquisa. Pensando no re-enactment, surgiu a idéia de trabalhar a repetição. Eu estou repetindo a Marina que se repete. O conceito de beleza hoje em dia se repete, se massifica, se fabrica.

O nome da matéria é Análise de Autores e Temas Teatrais. A repetição é pode ser considerada um tema teatral. A idéia foi trabalhar o conceito usando a edição para brincar com a repetição e inserindo novas imagens como uma bricolage. Ao mudar a forma do vídeo de Marina, procurei uma interrelação. Trabalhei o tempo usando outros conteúdos em um mash-up de imagens.
No vídeo original, o foco é a cabeça da artista.

Aqui o foco é múltiplo. Se a câmera, assim como o telescópio em A Casa Vista para o Mar (outra performance de Marina) direciona o olhar, aqui tive a intenção de usar a edição como, usando as palavras de Luiz Cláudio da Costa, uma “nova maneira de criar acontecimentos em arte”. Modelar e mudar a forma sem mexer no conteúdo, que nesse caso é o conceito.

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