Projeto de ambiente de (4x3x4) metros, composto por cinco retroprojeções simultâneas sobre três paredes, piso e teto. Cada retroprojeção ocupa toda a área de cada um dos planos. Seqüências de recortes cinza e azul são retroprojetados sobre cada plano. Conforme se transformam, cada recorte se funde aos outros, compondo um espaço caleidoscópico.
Este projeto visa desarticular e alterar esquemas rotineiros de visão e de orientação espacial. O ambiente é construído no intuito de provocar um desequilíbrio na orientação espacial do corpo e de promover uma experiência na qual o espaço é deformação caleidoscópica [[109]].
Para construir este ambiente, foi necessário esvanecer os contornos definidos por cantos e planos, presentes no espaço físico sobrepondo projeções virtuais que envolvem todo o espaço arquitetônico no qual o homem está. Esta sobreposição ocorreu a partir de artifícios de alteração de perspectiva, de reorientação espacial e da projeção de variantes de um mesmo evento visual em cinco planos diversos. Estas alterações incidem então sobre o corpo do espectador imerso em um espaço em tranformação no qual os limites do espaço não são definidos por planos estáticos.
Aqui, tomou-se um espaço real dinâmico como matriz para a construção do espaço virtual, com o intuito de desarticular relações espaciais conhecidas. O espaço virtual foi elaborado a partir da desarticulação de relações visuais como pontos de vista e perspectiva, e de alterações temporais. Os elementos visual e temporal foram manipulados digitalmente, congelados, rotacionados, replicados e reordenados a fim de comporem módulos, que, posteriormente foram retroprojetados ortogonalmente no espaço físico composto por cinco planos perpendiculares entre si, uma sala composta por três paredes, piso e teto.
Duas considerações contribuíram para a escolha do espaço real que se tomou como ponto de partida para a construção do espaço virtual. A primeira refere-se às relações visuais e de orientação do corpo que foram estabelecidas com a arquitetura em na experiência cotidiana. A segunda refere-se a fenômenos naturais que igualmente marcam a experiência humana, na qual o espaço observado se apresenta em uma qualidade fluida, transformação operada no tempo, que age como contraponto à rigidez arquitetônica. Estes dois elementos, rigidez e fluidez, foram o captados em vídeo a partir de recortes, pontos de vista do espaço. O espaço arquitetônico escolhido foi um poço interno de um prédio antigo. Olhando-se para o canto superior mais sombreado do poço, entreviu-se uma nesga do céu, no qual nuvens e luz operavam uma transformação no azul e projetavam sombras nas paredes. Situando a câmera a uma distância de cinco metros abaixo de um canto, um vértice formado pelas duas paredes mais sombreadas, captou-se este espaço em um movimento triangular, criando uma seqüência de recortes dinâmicos [[110]].
A seqüência captada em vídeo foi editada digitalmente, sendo decomposta em cinco novas seqüências dinâmicas, diferentes entre si. Cada nova seqüência é composta por cinco pontos de vista, recortes (cinza/paredes e azul/céu) de igual duração. A duração total das seqüências, vinte e cinco segundos, mantém o conjunto em um ritmo espasmódico que varia entre continuum e fragmentação, envolvendo o olhar e o corpo em um espaço dinâmico sem que estes se acomodem. Posteriormente, cada seqüência foi retroprojetada sobre cada um dos cinco planos que compõem o espaço físico. Ao final de cada seqüência, ela muda de plano, gerando assim uma nova reconfiguração espacial.
Tomando por referência uma sala que reproduz a escala utilizada na captação das imagens, construiu-se uma maquete virtual da instalação: uma caixa aberta composta por cinco faces, três paredes, teto e piso de igual proporções [[111]]. Cada seqüência foi retroprojetada sobre uma das faces internas desta caixa, perfazendo cinco projeções simultâneas de igual duração. Ao final de cada ciclo, vinte e cinco segundos, cada uma das seqüências muda de face, plano, ou seja, a seqüência que inicia na face inferior é retroprojetada sobre a face da direita, a da face direita sobre a superior, a da face superior sobre a face da esquerda, a da face da esquerda sobre a face do fundo e assim por diante.
No espaço físico [[112]], além de fundir os referentes espaciais habituais, paredes, teto, piso e cantos da sala para além de um limite físico, as retroprojeções simultâneas deslocam vértices e planos para outros pontos, provocando a ilusão de um espaço em deformação caleidoscópica [[113]]. O movimento em loop sobre as diversas faces promove uma rotação contínua no espaço, forçando o homem a reordenar o olhar e o equilíbrio corporal continuamente.
Contudo, o tratamento dado à temporalidade não permite que o espectador entre em vertigem cognitiva. A cada reconfiguração das imagens projetadas simultaneamente sobre os cinco planos da sala, as áreas em cinza e azul de cada plano se interfaceiam com os planos contíguos, formando áreas de passagem e condensação entre planos, reconfigurando os limites entre as três dimensões. Os ângulos formados entre os planos do espaço físico desaparecem em favor de novos ângulos agora formados pela geometria dos recortes azul-cinza do espaço virtual.