
Transcensurar
3 years ago
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1. Transcensurar
3 years ago
O que se esconde quando se mostra
e o que se mostra quando se esconde.
Susana Duarte
O gesto de inscrever, de deixar marcas num determinado suporte, remonta a uma época muito anterior ao nascimento da escrita. Num período considerado ainda Pré-histórico (as mais antigas inscrições são datadas do período Paleolítico Superior), os primeiros ensaios artísticos (ou de escrita) foram gerados na superfície da rocha. Se for considerada a interpretação que atribui um carácter mágico-religioso a este gesto primitivo, então o mais antigo tipo de escrita vai ser situado na antiga Mesopotâmia, com a gravação de pictogramas em tabuletas de argila, onde se registavam informações administrativas, económicas, políticas e do quotidiano. É portanto da necessidade de conservação de informações, de dados, que surge a escrita, e o momento do seu nascimento marca a linha divisória entre a Pré-história e a História, entre a história de que não há registo escrito e a história de que há registo escrito.
No entanto, este gesto originário foi adquirindo outros significados, transformando-se em gesto político e revelador de uma vontade de expressão.
10Abr: Nas ruas da cidade foram detectadas as inscrições murais com o desenho da foice e martelo: “Viva o 1º de Maio/ Viva a ditadura do proletariado/ Todos ao Rossio às 19h30/ O 1º de Maio é vermelho/ Todos ao Rossio às 19h30 MRPP”. Eliminadas. Info: DGS e GC.
11Abr: Numa rua de Matosinhos apareceu a seguinte inscrição: “liberdade para Arnaldo e Pisco – assassinos da PIDE – gritemos”. Foi eliminada. Info: DGS, GC, GNR e RMP.
É esse acto de inscrever em muros, no espaço público, que surge em vários registos dos actos considerados suspeitos pelas organizações policiais do Governo Fascista Português. E essas mesmas inscrições, que foram “eliminadas” do local onde foram feitas, foram registadas em documento de papel que sobreviveu no Arquivo da PIDE/DGS. É um desses relatórios (editado por Fernando Ribeiro de Mello, edições Afrodite), um sumário de todos os delitos observados pelas organizações policiais, que origina o projecto conjunto de Carlos Barros e Rui Correia para o espaço de uma livraria. Em Transcensurar os artistas retomam os gestos de inscrever e de apagar, revelando palavras que circulam entre a censura e a subversão em permanente tensão entre elas, sob o cenário da rua da cidade e das pessoas anónimas que o percorrem, espaço político de visibilidade e que pode permitir a expressão anónima. Essa tensão é ainda sublinhada pela fusão entre o movimento repetitivo da música e o som quase imperceptível de notícias difundidas no dia 25 de Abril de 1974. E é nesse prefixo trans agregado ao radical censura que se revela o princípio deste trabalho. O que está para além de, o que ultrapassa as fronteiras da censura? O que está para além daquilo que faz considerar um acto subversivo e suspeito? O que diz a linguagem e o que esconde? E o que persiste para além dessa época considerada de ditadura até ao hoje considerado democrático? O que era censurado ainda o é? Os mesmos gestos, palavras e actos ainda são escondidos ou os limites da liberdade que ganharam novos contornos permitem que sejam mostrados? E o que está para além daquilo que é mostrado, o que fica por dizer quando se diz? Ou seja, o que se esconde quando se mostra e o que se mostra quando se esconde? É esta a questão crucial que os autores colocam e que é apresentada de uma forma que também ela não diz tudo. É esse limbo entre o revelar, o não revelar completamente e o esconder que permite todas estas indefinições no que toca à construção do espaço de liberdade. Mas apesar de todas as fragilidades da linguagem, esse gesto de inscrever a palavra contém a possibilidade de se tornar um acto de resistência ao apagamento.
Susana Duarte
e o que se mostra quando se esconde.
Susana Duarte
O gesto de inscrever, de deixar marcas num determinado suporte, remonta a uma época muito anterior ao nascimento da escrita. Num período considerado ainda Pré-histórico (as mais antigas inscrições são datadas do período Paleolítico Superior), os primeiros ensaios artísticos (ou de escrita) foram gerados na superfície da rocha. Se for considerada a interpretação que atribui um carácter mágico-religioso a este gesto primitivo, então o mais antigo tipo de escrita vai ser situado na antiga Mesopotâmia, com a gravação de pictogramas em tabuletas de argila, onde se registavam informações administrativas, económicas, políticas e do quotidiano. É portanto da necessidade de conservação de informações, de dados, que surge a escrita, e o momento do seu nascimento marca a linha divisória entre a Pré-história e a História, entre a história de que não há registo escrito e a história de que há registo escrito.
No entanto, este gesto originário foi adquirindo outros significados, transformando-se em gesto político e revelador de uma vontade de expressão.
10Abr: Nas ruas da cidade foram detectadas as inscrições murais com o desenho da foice e martelo: “Viva o 1º de Maio/ Viva a ditadura do proletariado/ Todos ao Rossio às 19h30/ O 1º de Maio é vermelho/ Todos ao Rossio às 19h30 MRPP”. Eliminadas. Info: DGS e GC.
11Abr: Numa rua de Matosinhos apareceu a seguinte inscrição: “liberdade para Arnaldo e Pisco – assassinos da PIDE – gritemos”. Foi eliminada. Info: DGS, GC, GNR e RMP.
É esse acto de inscrever em muros, no espaço público, que surge em vários registos dos actos considerados suspeitos pelas organizações policiais do Governo Fascista Português. E essas mesmas inscrições, que foram “eliminadas” do local onde foram feitas, foram registadas em documento de papel que sobreviveu no Arquivo da PIDE/DGS. É um desses relatórios (editado por Fernando Ribeiro de Mello, edições Afrodite), um sumário de todos os delitos observados pelas organizações policiais, que origina o projecto conjunto de Carlos Barros e Rui Correia para o espaço de uma livraria. Em Transcensurar os artistas retomam os gestos de inscrever e de apagar, revelando palavras que circulam entre a censura e a subversão em permanente tensão entre elas, sob o cenário da rua da cidade e das pessoas anónimas que o percorrem, espaço político de visibilidade e que pode permitir a expressão anónima. Essa tensão é ainda sublinhada pela fusão entre o movimento repetitivo da música e o som quase imperceptível de notícias difundidas no dia 25 de Abril de 1974. E é nesse prefixo trans agregado ao radical censura que se revela o princípio deste trabalho. O que está para além de, o que ultrapassa as fronteiras da censura? O que está para além daquilo que faz considerar um acto subversivo e suspeito? O que diz a linguagem e o que esconde? E o que persiste para além dessa época considerada de ditadura até ao hoje considerado democrático? O que era censurado ainda o é? Os mesmos gestos, palavras e actos ainda são escondidos ou os limites da liberdade que ganharam novos contornos permitem que sejam mostrados? E o que está para além daquilo que é mostrado, o que fica por dizer quando se diz? Ou seja, o que se esconde quando se mostra e o que se mostra quando se esconde? É esta a questão crucial que os autores colocam e que é apresentada de uma forma que também ela não diz tudo. É esse limbo entre o revelar, o não revelar completamente e o esconder que permite todas estas indefinições no que toca à construção do espaço de liberdade. Mas apesar de todas as fragilidades da linguagem, esse gesto de inscrever a palavra contém a possibilidade de se tornar um acto de resistência ao apagamento.
Susana Duarte
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