Sal e prata| vídeo 9’ 20”, cor, stereo, 16:9 | fotografia 40 x 60 cm e texto manuscrito| 2010

Salt and Silver | video 9’ 20”, color, stereo, 16:9 | photography 40 x 60 cm and manuscript | 2010

Esta obra foi produzida e adquirida com recursos do Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça – MinC/FUNARTE e integrada ao acervo do Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães – MAMAM.

concepção e direção
RODRIGO BRAGA
imagens
MARY GATIS
FRANCISCO DE ALENCAR
edição
CAMILA VALENÇA
pós-produção
NICE PHAVANELLY
som direto
MARY GATIS
fotografia still
BRUNO VILELA
CLARISSA DINIZ
MARY GATIS
agradecimento
BETH DA MATTA
CLARISSA DINIZ
DALVA FERREIRA

Recife, fevereiro de 2010

Transcrição do manuscrito:

Seis horas e trinta e sete minutos do dia três de outubro de dois mil e nove. Uso um caderno e um lápis para contar um sonho que tive nas poucas horas de sono em mais uma noite esquisita nessa semana mal dormida. Eu que quase não lembro dos meus sonhos, prefiro escrever imediatamente aqui o que ainda é fresco em minha memória, como fluxo de pensamento.

Tão angustiante foi a sensação que tive ao me deparar com a decisão obstinada de Dalvinha em cavar aquele buraco em direção às profundezas. Ela chorava, mas estava certa, muito certa, de sua vontade aparentemente sem sentido: apenas cavar, cavar e aprofundar, por tempo indefinido... Aquilo para os outros que souberam da ideia apenas parecia loucura, mais nada. Para mim, era um gesto nobre, metáfora de sua doação nesses longos vinte e cinco anos dedicados à nossa família. Eu só me preocupava com sua saúde. Achava que a resistência do seu corpo poderia não ser suficiente para a árdua empreitada: cavar o solo em sua labuta diária. Será que a subestimava? Será que sempre a subestimei?

Os dias se passavam e a nossa Dalva virou notícia. Bem me lembro da luz quente de uma equipe de TV iluminando de cima para baixo o buraco já bastante profundo. Aquilo parecia não a perturbar, ela não olhava para cima, não queria dormir, não pedia para sair. Tudo o que eu pensava era em fazer chegar a ela oxigênio puro por um tubo, para lhe dar forças para que continuasse sua jornada. Talvez lembrasse do fato de que ainda fumava. Com oito anos de idade, conheci Dalvinha fumando à mesa após o café, como também faziam meus pais.

Acordei.

E, ao despertar, lembrei-me de uma colher de prata na gaveta da cozinha da minha mãe. Tento lembrar mais detalhes do meu sonho, mas não consigo dizer com que instrumento cavara um buraco tão profundo. Cavar o solo duro com uma colher me remete à desesperada insanidade dos presidiários. Aquela colher, já secular, passara pelas mãos e panelas de muitas mulheres, desde minha bisavó. Teria eu o direito de interromper tal fadado destino de gerações? Poderia contar outra história?

Dar, à terra, a prata e o sal do suor, é como deixar grafite no papel.

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