Creio que uma pessoa reconstrói memórias com o auxílio dos outros. Além das que se tornam indeléveis, há toda uma história vivida, que por ter sido mal ou apenas parcialmente registrada, tende a ficar em um compartimento obscuro, acessível apenas do exterior.

Não é raro ver a letra de uma canção ser montada a dois, como um quebra-cabeças. Duas cabeças pensando, uma se apoiando na outra, preenchendo lacunas e possibilitando ligações. Isto também ocorre com outras recordações: se requisitado, você talvez não saberá a cor do portão do pátio de sua escola, porém ativando certas conexões latentes, talvez você consiga acessar vestígios de imagens. Uma arqueologia coletiva pode ativar a lembrança da abertura da novela de vinte anos atrás ou casos de polícia que estiveram nos jornais.

Esse processo não ocorre com os nômades globais ou com pessoas que simplesmente não moram mais no lugar onde cresceram. O compartimento “compartilhado” nunca é aberto, pois não há estímulo externo. É um passado solitário. Mas a mente, sempre esperta, é acostumada a desenvolver sistemas de adequação. Acredito que há um recurso que permitiria a abertura do compartimento compartilhado sem a necessidade de um agente externo.

Seria a razão pela qual sou tão frequentemente assaltado por recordações vívidas. Um teletransporte mental forçado e inconsciente. Um retorno não solicitado de fragmentos de memórias. Quiçá vestígios esquecidos manifestam-se diante da possibilidade de não existir nunca mais?

O ponto fundamental que atravessa toda a pesquisa deste trabalho é o conceito de lar. O indivíduo está em casa quando se encontra em seu quarto, na sua rua, no seu bairro, no vale em que se situa o vilarejo onde nasceu, no espaço onde vivem aqueles com os quais se identifica. Todos, de certa forma, são conceitos estendidos de casa/lar, e reduzidos de nação. Motivado pelo meu “instinto migratório” e pela busca de uma concretização do que seria o meu lar, foquei minha pesquisa imagética sobre a geografia: mapas, fotos de satélites, fotos de cidades, de prédios e ruas. Buscava conectar-me com os anseios que me perturbavam, pôr um rosto a esta convocação primal.

Trabalho de conclusão de curso, Artes Plásticas, pela UnB.
OBS: Vídeo sem audio.

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