No ensaio geral que aconteceu hoje pela manhã na Sala São Paulo, sob regência de Marin Alsop, a Orquestra interpretou a obra "Saravá – Homenagem a Vinicius de Moraes" de Clarice Assad, encomendada pela Osesp com estreia mundial nos concertos desta semana.

"Saravá é uma rapsódica homenagem ao poeta, compositor e escritor Vinicius de Moraes. A peça surgiu como reflexo das minhas impressões sobre sua vida e sua obra, depois de um período de imersão em seus textos e letras, navegando pela Bossa Nova, pelos Afro-Sambas e ainda por uma seleção de ideias melódicas nas parcerias com outros compositores.
Sem perder de vista o poeta Vinicius, a maioria das menções temáticas a obras musicais de outros compositores foi elaborada com três princípios em mente. Primeiro, preservar a ideia textual das passagens abordadas; depois, destacar movimentos importantes no cenário musical brasileiro; finalmente, unir essas ideias em uma única composição, como uma história — com princípio, meio e fim —, sem, contudo, comprometer a minha própria identidade como compositora.
Embora Vinicius seja um autor lírico, suas letras e poesias têm forte substância imagética, o que dá à sua produção um caráter narrativo admirável. Jamais guardou para si o gênero puro, e muito do que fez não pode ser categorizado apenas como música, poesia, literatura ou teatro. Esse hibridismo poderoso serviu de combustível para a feitura de Saravá: eis aqui um homem capaz de libertar as palavras, que tomam seu próprio destino e se recriam no universo, assim como a luz que se revela no escuro.
Como compositora, eu me deixei levar também pelas sensações das suas palavras, escritas ou cantadas. Tomei por base essa força criativa, seja no brilho das escolhas das linhas, seja na construção rigorosa dos sonetos, tudo isso colaborando na construção de um poeta Vinicius da minha imaginação, com a devida licença para transformá-lo em energia pulsante, que explode em faíscas e luzes, desde o primeiro momento da música.
Quando comecei minha pesquisa, procurava apenas um Vinicius, mas encontrei vários no caminho! Acredito que dentro dele havia outros ainda, com seus amores, suas paixões, suas angústias e tantos novos horizontes a serem conquistados. Ele era insaciável, e cada nova produção era um impulso para outra. Era movido pela paixão de criar, de se envolver em algo novo sempre.
Saravá tem, nesse aspecto, a mesma característica: uma peça composta de citações em que cada uma se apresenta com urgência e logo deixa espaço para outra.
Foi inevitável lançar mão do romantismo e da passionalidade de Vinicius, assim como do senso de humor, da versatilidade e de sua habilidade ao escrever para o público infantil. Como pretendi visitar sua vida, passei também pela ditadura, pelos altos e baixos dos nove casamentos e oito separações, pela religiosidade e pelo misticismo e por sua impagável boêmia carioca. Não é o poeta mesmo que diz, em “Samba da Bênção”: “É melhor ser alegre que ser triste,| a alegria é a melhor coisa que existe”? Fui guiada por essa frase, que abre e conclui Saravá.
Fora a sonoridade jazzística de “Garota de Ipanema” (parceria com Tom Jobim), apontando aqui para o sucesso no continente americano, Saravá é pura brasilidade, em seus gestos, melodias e ritmos. Como, para mim, a obra de Vinicius é, na sua maior parte, atemporal, minha peça não tem a cronologia como fio condutor, mas citações independentes da sequência linear de suas criações e condizentes com a minha imagem do artista e poeta Vinicius, fiéis às imagens que pude intimamente produzir a partir de suas letras e poesias. É essa mesma imagem de força e energia que se traduz em realidade na música.
Um presente, e um enorme prazer para mim, no ano em que se completa o centenário de nascimento de Vinicius de Moraes.
Salve Vinicius, Saravá!"
Nota de programa da compositora Clarice Assad publicada na 5ª edição da Revista Osesp 2013.

A obra será interpretada nos concertos de hoje e amanhã, 21h, e sábado, 16h30. O concerto inclui também a "Fantasia Sobre Duas Melodias Populares" de Damir Imeri, o "Concerto nº 1 Para Piano" de Shostakovich e a "Sinfonia nº 2", de Sergei Prokofiev.
Saiba mais sobre o concerto: osesp.art.br/portal/concertoseingressos/concerto.aspx?c=2572

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