A Orquestra interpretou sob regência de Lawrence Foster, e com solos do pianista croata Dejan Lazić, o "Concerto Para Violino" de Johannes Brahms em versão para piano, feita pelo próprio solista convidado.

"[...] Há algo de muito subjetivo nessa escolha, é claro, e sempre considerei essa peça, juntamente com o Concerto Para Piano n.º 4, de Beethoven, um dos melhores concertos já escritos. Naturalmente, logo percebi o desafio que seria arranjar Brahms. Intrigava-me a ideia de apresentá-lo numa versão idiomática para piano e orquestra. O objetivo final era claro: eu mesmo queria interpretá-lo!
[...] Também é interessante notar como Beethoven trata a cadenza original do primeiro movimento, e como a passagem tem grande importância para ele no novo arranjo. Ele compôs uma cadenza totalmente nova e orquestrou-a para piano e tímpanos. Da mesma forma, na minha versão para piano do Concerto Para Violino, de Brahms, compus uma nova cadenza, pela simples razão de que Brahms não deixou nenhuma. As cadenzas compostas por Joseph Joachim, Fritz Kreisler ou Jascha Heifetz permanecem “teimosamente” adequadas para o violino e não são realmente pianísticas; qualquer adaptação delas acarretaria grandes perdas. Além disso, talvez cada cadenza devesse ser uma espécie de “área livre”, em que cada solista improvisasse sobre um material ouvido previamente.
Quem quiser transformar um concerto para violino em concerto para piano só porque ambiciona vestir o traje do solista não deve fazê-lo. Mas também não sinto que haja qualquer outro concerto romântico para violino que possa sobreviver à transformação. No âmbito musicológico, a correspondência entre Brahms e seu homenageado, Joseph Joachim, desempenhou um papel importante para mim. É evidente que Brahms sempre compôs como pianista (no piano) e, portanto, sentia essa música como pianista. Não é à toa que a peça passou por inúmeras mudanças, depois conselhos e correções feitas por Joachim. [...]
O que emerge do texto é uma boa dose de dificuldade, que não vem apenas da natureza do violino: Brahms permaneceu, em primeiro lugar, um pianista; assim, estava fora do mundo de um virtuose do violino. Talvez isso explique por que Hans von Bülow, certa vez, descreveu o concerto como sendo “contra o violino”. Pablo de Sarasate, por sua vez, recusou-se a tocá-lo, e Henryk Wieniawski comentou que era “simplesmente impossível de tocar”. Sabe-se hoje que não é bem assim.
Mas outra questão — talvez mais importante — se apresenta: é realmente “permitido” que se faça esse arranjo? Em retrospecto, sabemos que Brahms fez inúmeros arranjos e transcrições de obras suas e de outros compositores. Estou convencido de que eram mais do que justificados; portanto, creio que o próprio Brahms não teria nada contra a minha ideia. Detenhamo-nos por um momento em Brahms e seus contemporâneos (como Franz Lizst), que fizeram grande número de transcrições, arranjos e variações. Hoje em dia, parece que deixamos de valorizar essa tradição. Talvez eu esteja me comportando aqui mais como compositor do que como músico — a linha que separa a produção da reprodução é, sem dúvida, demasiado tênue.
Lembremos da linda Sonata Para Violino em Sol Maior e de sua transcrição para violoncelo efetuada pelo próprio Brahms: o que emerge é a maravilhosa Sonata Para Violoncelo em Ré Maior. O compositor sabiamente reformulou a obra num outro tom. Alterada e modificada, a peça sofre uma espécie de transfiguração. O mesmo vale para ambas as magistrais Sonatas Para Clarinete, que Brahms transcreveu para viola, ou sua versão da famosa Chaconne Para Violino Solo em Ré Menor, de Bach, para piano (só a mão esquerda!). No final das contas, estamos tratando da música, e não da institucionalização da música.
Resta a pergunta retórica acerca do que é uma transcrição, o que faz um arranjo, que forma pode ser definida como uma nova versão. A chave para esse enigma é que procurei construir de novo a parte de violino, recompondo a voz no estilo inteiramente brahmsiano e adicionando minha própria cadenza. Ao longo da peça, este foi o meu pensamento: imaginar o que faria Brahms [...] e dar aos pianistas a chance de tocar e desfrutar desta maravilhosa música, que os violinistas têm há mais de 130 anos." Nota de programa de Dejan Lazić com tradução de André Fiker, publicada na 6ª edição da Revista Osesp 2013.

A obra será interpretada nos concertos desta quinta e sexta, 21h, e sábado, 16h30. O programa inclui ainda a "Sinfonia nº 1 em Mi Bemol Maior, Op. 13" de George Enescu. Saiba mais sobre o programa: osesp.art.br/portal/concertoseingressos/concerto.aspx?c=2576

Assista a Orquestra interpretando a obra em versão original para violino: vimeo.com/74879947

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