O AR DA GRAÇA

(Dois pintores na Casa de Tijolo).

Somos dotados de vontades, intenções, pensamentos, sensações, percepções, idéias, etc. Mas deixados à própria sorte todos esses acontecimentos que nos perpassam a cada instante poderiam muito bem configurar-se como puro movimento destituído de uma intenção coerente. Representando sua natureza instável, desconexa e imprevisível. Lúdica, ou ao contrário, trágica, dependendo do ponto de vista.

Dois pintores podem trilhar caminhos bem diversos, perseguindo uma mesma possibilidade ou ideia: escrever um texto sem palavras para dizer nada. Vindo de uma mente vazia... Não procuram o fim de uma pintura, mas onde começa1

Algo que tem seu próprio tempo e só saberemos a cor (muitas vezes indefinível) depois que se nos apresentar, que pode se confirmar ou pedir novas intervenções ao longo do tempo, muitas vezes de forma indefinida. Algo que já existia bem antes, cuja chegada, todavia é sempre uma surpresa do desconhecido, que permanece como tal, irredutível a um discurso.

Um sentimento peculiar, uma “Intenção Original”, um lembrar... Trazer de volta, re-significar algo que nunca deixou de ser. Talvez a intenção que serve de fundo ao que se busca nestas pinturas seja algo que surja por si e que nos dê uma sensação de justeza. A intenção justa entre tantas, que emerge desta ação, de cada gesto e de todos em conjunto.

Não ter nenhuma intenção, entre tantas intenções, um pouco além (ou aquém) desse lugar em que se agita a existência nas nossas atividades corriqueiras, isto é, uma parte dela.

Encontro deste outro lugar, onde nos leva cada inspiração e cada expiração quando simplesmente respiramos o ar de cada dia... Dizem que todo parto, naturalmente passa pela dor, uma dor total, sem limites, ou ao menos é essa sensação que passa muitas vezes pelas pessoas. Isso pode ser traduzido como sofrimento, ou prazer, ou tudo isso e muito mais numa mesma experiência para além das palavras (aquilo que se é), dependendo do ponto de vista...
Cada pessoa que se disponha a nos dar o ar de sua presença possa viver a experiência que estas pinturas oferecem é nosso único ensejo.

Agradecemos a atenção.

A Casa de Tijolo, maio de 2014.

1

Viver o instante da ação. Cada gesto pode ser sempre o último: o que determina que um trabalho “termina”? Quantas camadas

foram necessárias para se “dizer” aquilo que ali simplesmente é? Algo que se dá muitas vezes de forma inopinada, apreender

o lapso, a fissura que logo se fecha novamente. Mas por alguns segundos foi real: o desfecho, esse momento do ser que nos

surpreende sempre; inevitável, imprevisível, o fazer é um embrenhar-se em que se está sempre na espreita. Algo em dado

momento nos captura neste instável movimento da atenção. Talvez a decisão de fato esteja em pôr-se a caminho, e mesmo aí,

onde começa?

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