O concurso Ié-Ié do Cineteatro Monumental foi um autêntico campeonato nacional de música Ié-Ié. Iniciado a 28 de Agosto de 1965 só terminou a 30 de Abril de 1966, ou seja oito meses depois, deixando no seu rasto 14 eliminatórias, 4 meias finais e uma final. Reuniu em Lisboa mais de 70 conjuntos musicais vindos de todas as partes do país, Ilha da Madeira incluída, bem como de Angola, Moçambique, Guiné e Cabo Verde.
O que este concurso evidenciou foi o surgimento de uma nova classe etária com aspirações e hábitos de consumo diferentes da geração precedente. A juventude (ou ainda a “mocidade” como se dizia), fenómeno de massa inédito, encontrava na música, no cinema e na moda factores identitários fortes. As fotografias e os comentários publicados na imprensa sublinham que o espectáculo era tanto no palco como na plateia. O público participava e demonstrava que fazia parte de um movimento colectivo, de uma nova forma de se exprimir e de viver. Aspirava a novos modelos de relações sociais e geracionais. Catalisando a reivindicação juvenil por outros modos de vida, o concurso revelava um outro tipo de escapismo. Num país inconcebivelmente triste e oprimido, indiciava a possibilidade de fugir – aos sons de músicas estrangeiras electrizantes – da claustrofobia regimentada em que toda vivia uma geração.
IÉ-IÉ
Editado por David-Alexandre Guéniot e Patrícia Almeida
A partir de uma pesquisa de artigos nos jornais O Século e Diário Popular e na revista Plateia realizada na Hemeroteca Municipal de Lisboa e na Biblioteca Nacional de Portugal.
Texto: David-Alexandre Guéniot
1ª edição de 300 exemplares.
© GHOST Editions 2017
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