ANTES DE ASSISTIR, LEIA A DESCRIÇÃO ABAIXO PARA EFEITOS DE MELHOR CONTEXTUALIZAÇÃO.

Após as manifestações no Rio de Janeiro na quinta-feira dia 20 de junho terem sido dispersadas pelo uso da força policial, que não mediu esforços para tentar acabar com os protestos e fez uso indiscriminado de munição não letal contra os manifestantes (leia-se bombas de efeito moral, de gás lacrimogêneo, spray de pimenta e balas de borracha a esmo), fui junto de uma colega para a Lapa, esperar as coisas se acalmarem para conseguir voltar para casa e dar uma espairecida.
Pois bem, a cena que encontrei na Lapa não foi de tranquilidade, e sim de caos, como o visto no centro inteiro anteriormente. Um caos promovido pela mesma atuação duvidosa da polícia, que chegou a lançar bombas de gás lacrimogêneo contra civis nos entornos e dentro da Pizzaria Guanabara, contra pequenos grupos de pessoas paradas na rua a conversar perto dos arcos, dentro do Circo Voador (onde ocorria um show) e contra alguns bares na rua Mem de Sá, que estavam cheios de clientes que nada tinham a ver com tudo aquilo.
Passei por tudo isso, e fui até a esquina do conhecido "Litrão", ainda na Mem de Sá. Ali também havia um grande contingente de policiais, que após algum tempo se foram, sobrando apenas algumas pessoas na esquina conversando. Porém, a sensação de estarmos sitiados não passava, pois haviam diversas rondas, de motos do Choque, carros e até um blindado do Bope (vulgarmente conhecido como Caveirão) que não paravam de circular, voltando a passar por nós ao decorrer de poucos minutos, repetida e constantemente.
Nesse cenário, em dado momento, uma dessas rondas de motos do Choque passou e deu dois tiros de bala de borracha contra esse grupo de pessoas que se encontrava reunido nessa esquina, e que não faziam absolutamente nada, nem mesmo protestar (que a essa altura, já virou conduta 'criminalizada'). Por muita sorte, ninguém foi atingido, apesar de uma mulher ter ficado muito assustada por ter sentido o deslocamento do ar ao lado dela, graças à velocidade imprimida pela bala em sua trajetória. Após observar que todos estavam bem, nos acalmamos novamente.
Ocorre que, poucos minutos depois, passa mais um comboio, desta vez do Bope, com o Caveirão entre eles. Uma menina, talvez amiga da que se assustou com o tiro, resolveu entrar na frente dos carros para protestar, visto o tamanho de sua indignação aos fatos ocorridos durante toda a noite, e ao ápice novamente alcançado alguns minutos antes com o episódio das balas de borracha. Resolvi filmar tudo, talvez por instinto. Ao entrar na frente do Caveirão para tentar conter seu avanço, o veículo avançou sobre ela, acelerando de forma perigosíssima contra a mesma, de maneira completamente indiferente à sua integridade física. Um Caveirão, um veículo com a robustez de uma máquina de guerra, como um blindado ou um tanque, avançando inescrupulosamente sobre uma civil que protestava de forma pacífica e desarmada e não oferecia absolutamente nenhum perigo aos policias. A essa altura, filmava tudo ao lado da cena, e sem nem me dar conta, entrei na frente do blindado para ajudá-la e evitar que fosse atropelada, e protestar contra a ação dos policiais. Quando pude restabelecer o raciocínio, percebi o que fazia e o perigo que corria ali, na frente de um veículo de guerra operado por indivíduos completamente incapacitados, não resisti mais, perdi a coragem e fui pro lado, saindo de sua frente.
Em seguida, apareceu um policial pelas minhas costas, e claro, sem se oferecer ao diálogo ou tentar controlar a situação de forma pacífica, tratou logo de jogar spray de pimenta diretamente no meu rosto, a menos de um metro de distância. Saí correndo como um animal acuado, de forma instintiva, sem saber o que fazia, sem ver nada e sem conseguir respirar. Desesperado e transtornado, só sentia uma ardência absurda em toda a face e em especial nos olhos (usava lentes de contato, que ainda pioram toda a ardência e incômodo), não conseguia respirar e tinha ânsia forte de vômito. Consegui achar um canto para me sentar, tentar respirar e restabelecer os sentidos. Após alguns minutos, ainda com a camera na mão, liguei-a para gravar e dei um depoimento do ocorrido.
Por fim, sei que em algum momento posso soar exaltado ou até sensacionalista no vídeo ou no próprio texto, mas é difícil controlar-se numa situação do tipo. Tudo o que se passa no vídeo é autêntico, minha voz se encontra alterada graças ao efeito do spray de pimenta, nesse momento ainda era difícil controlar a respiração de forma natural. Não vou aprofundar as críticas à ação da polícia em si numa análise mais elaborada aqui, já demonstrei suficientemente meu ponto de vista sobre tal neste texto e no vídeo, concluo apenas reiterando a brutalidade e desinteligência de sua operação como um todo, e seu uso como instrumento de controle político e social.

Loading more stuff…

Hmm…it looks like things are taking a while to load. Try again?

Loading videos…