A Orquestra, o Coro da Osesp e o Coro Acadêmico da Osesp interpretaram hoje a "Nona Sinfonia" de Beethoven, sob regência de Roberto Tibiriçá e ao lado dos solistas Marina Considera (soprano), Carolina Faria (contralto), Cleyton Pulzi (tenor) e Leonardo Neiva (barítono)

"A "Nona Sinfonia" de Beethoven é, entre muitas outras coisas, uma obra paradoxal. Ao mesmo tempo que futurística, porque expandiu as proporções da sinfonia a uma escala gigantesca, nunca antes imaginada, é também uma obra retrospectiva, uma síntese de referências ao passado. Entenda-se como passado, neste caso, não só as obras de grande envergadura de Händel e Haydn, mas, principalmente, as do próprio Beethoven.
Esse propósito de síntese não implica porém que Beethoven quisesse que esta fosse sua última sinfonia –apesar de isto ter acontecido– uma vez que sobreviveram esboços de uma "Décima".
Uma causa plausível para esse retorno ao passado nas obras do fim da vida pode ser atribuida à surdez, que tornara-se total. Nos anos de juventude, Beethoven, antes de ser reconhecido como compositor, conquistara considerável fama com suas extraordinárias improvisações ao piano, cheias de invenção e explosiva energia. A capacidade de improvisação como pianista virtuoso certamente contribuiu para a formação do compositor. As Sonatas para Piano foram o laboratório onde Beethoven realizou as experiências que lhe permitiram forjar seu estilo pessoal. Com o passar dos anos, o avanço da surdez limitou o papel da percepção auditiva no seu processo criativo e ela foi sendo progressivamente substituida pela audição interna e pela memória, que o aproximou do passado.
As referências a outras obras podem ser encontradas já no princípio da "Nona Sinfonia". O tema principal do primeiro movimento, um "allegro ma non troppo", "un poco maestoso", toma emprestado um fragmento da "Segunda Sinfonia". Ali trata-se de uma breve passagem dramática em Ré menor, que aparece na introdução e não retorna jamais. [...] Na "Nona", porém, o gesto em ré menor torna-se o material central e desenvolve todo seu potencial dramático. Inicialmente ele aparece dissolvido em hesitações, para, em seguida, emergir da bruma como uma grandiosa proclamação. [...] Tal é a arte suprema de Beethoven: extrair o máximo de expressão de materiais ínfimos que, em última instância, confundem-se com o próprio arcabouço do sistema tonal.
Podemos conjecturar as razões que levaram Beethoven a retomar esta passagem fugaz da sua "Segunda Sinfonia". Tais motivos prender-se-iam ao contexto traumático em que a "Segunda" foi concebida. Aquele foi o momento em que ele teve consciência de que estava condenado à surdez progressiva. Numa carta a seus irmãos, conhecida como o Testamento de Heiligenstadt, escrita nessa época, outubro de 1802, mas nunca enviada, Beethoven revela que, em desespero com a perda do sentido fundamental para sua arte, pensou em suicídio. Apesar disso, o clima da "Segunda" é bem humorado. Mas ao compor a "Nona", a surdez não era mais uma mera ameaça: havia se instalado completamente. Por isso ele recuperou da "Segunda" justamente a passagem dramática que se insinuara naquele movimento alegre como uma breve perturbação, logo esquecida, mas que agora não podia mais ser afastada.
É um mistério que esta sinfonia monumental, a maior e mais influente de todas as nove de Beethoven, e consequentemente de toda a história da música, pudesse ter sido escrita por um compositor imerso em completa surdez. A "Nona" representa a essência do pensamento de Beethoven na fase final de sua carreira, em que as obras escasseiam em número, refletindo a redução das suas capacidades físicas, mas em compensação
concentram-se em idéias originais e crescem em ambição artística.
A composição da "Nona Sinfonia" ocupou Beethoven durante todo o ano de 1823. Uma sinfonia de duração inusitadamente longa como a "Nona", em que todos os movimentos excedem tudo o que já havia sido empreendido antes, necessitava algumas estratégias também inusitadas para garantir a unidade da obra.A mais importante delas é a recorrência de antecipações e reminiscências de materiais temáticos ao longo da
"Sinfonia". As melodias e motivos dos diversos movimentos se interrelacionam sutilmente, e, em última instância, apontam todos para o movimento final, a “Ode à Alegria”, em que são explicitamente trazidos de volta à cena. Essa habilidade de lidar com as grandes formas musicais é um dom extremamente raro. [...] Na "Nona", uma combinação de talento natural e esforço infatigável permitiu a Beethoven erguer o conceito de monumentalidade da sinfonia a um patamar insuperável para as próximas gerações.""

Nota de programa de Rodolfo Coelho de Souza, publicada no encarte do CD Beethoven – Sinfonia nº 9.

Saiba mais sobre o concerto: osesp.art.br/portal/concertoseingressos/concerto.aspx?c=2968

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