1. Sonho Árabe

    I

    Ser um árabe e ter perto
    A morena companheira,
    A vida um grande deserto,
    Tu a única palmeira;
    Manto ao vento, ir de carreira
    A galope em campo aberto,
    Na mão a lança guerreira…
    —Assim eu sonho, desperto.
    Cai a tarde. Volto a casa.
    E já da planície rasa
    Surge a cidade natal.
    Voam cegonhas ao Sul;
    Ofusca a alvura de cal;
    E há minaretes no Azul.

    II

    E eu evoco a alcova já:
    Mosaicos de lés a lés
    E, para a nudez dos pés,
    Alcatifas de Rabat.
    Só a penumbra entra lá.
    Perfumadores de aloés,
    Colchas, coxins, narguilés,
    E um tamborete com chá.
    Das vivas cores o matiz,
    O teu corpo, a tua fala,
    Luz e olor, tudo condiz.
    Bastam os tons: de garridos,
    Entornam fogo na sala
    E embebedam os sentidos.

    III

    Há rosas no azul do espaço;
    A tarde lembra um jardim;
    O deserto é d’oiro baço
    E as mesquitas de marfim.
    Caem flores quando passo,
    Lá do alto sobre mim;
    Allah abriu o regaço,
    Cheira a cravos e a jasmim.
    Entro na alcova, — alegrete
    De cores festivas e aromas.
    Tu bailas sobre um tapete.
    Afago-te o seio duro,
    E, ao beijar-te as duas pomas,
    “Só Deus é grande!” — murmuro

    Jaime Cortesão

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  2. # vimeo.com/40493219 Uploaded 236 Plays 0 Comments
  3. Volto sempre aquela foto
    tirada algures no alto
    duma colina de Lisboa.
    O Tejo, ao fundo,
    prolongado na linha do horizonte,
    assemelha-se a “écharpe” de seda,
    brilhante, planando,
    descobrindo-te os ombros.

    A cidade, entre ti e o rio,
    traz nas vísceras os escombros,
    e no útero os assombros
    rutilando ao sol de verão.

    (O teu sorriso, etéreo,
    mas tão conciso, não.)

    Passo meus dedos por teus lábios,
    rúbeos, almiscarados, e neles
    fico suspenso.

    (Escondido sob óculos
    adivinho um mundo imenso.)

    # vimeo.com/18469558 Uploaded 44 Plays 0 Comments
  4. Salobro percorro-te
    para a foz Em desvario
    Fui antes gelo Agora rio

    (do quanto teu corpo tremia
    enquanto todo me derretia)

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  5. Porque os outros se mascaram mas tu não
    Porque os outros usam a virtude
    Para comprar o que não tem perdão.
    Porque os outros têm medo mas tu não.

    Porque os outros são os túmulos caiados
    Onde germina calada a podridão.
    Porque os outros se calam mas tu não.

    Porque os outros se compram e se vendem
    E os seus gestos dão sempre dividendo.
    Porque os outros são hábeis mas tu não.

    Porque os outros vão à sombra dos abrigos
    E tu vais de mãos dadas com os perigos.
    Porque os outros calculam mas tu não.

    ----

    PERQUÈ

    (trad. Ponç Pons)

    Perquè els altres es disfressen però tu no
    Perquè els altres empren la virtut
    Per comprar allò que no té perdó.
    Perquè els altreds tenen por però tu no.

    Perquè els altres són sepulcres emblancats
    On germina silenciosa la podridura.
    Perquè els altres callen però tu no.

    Perquè els altres es compren i es venen
    I els seus gestos donen sempre dividend.
    Perquè els altres són hàbils però tu no.

    Perquè els altres cerquen l’ombra dels recers
    I tu dónes la mà als perills.
    Perquè els altres calculen però tu no.

    # vimeo.com/2524002 Uploaded 861 Plays 0 Comments

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